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O desapontamento de monsieur Potingnac

Luis Fernando Verissimo

Para você que não aguenta mais a atual situação nacional – ou, pensando bem, o atual século: refugiemo-nos no século 18.

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Monsieur Potingnac ensina a jovem criada Armandine a seduzir seu patrão, Raul.

Monsieur Potingnac não age desinteressadamente. Está de olho em Augustine, mulher de Raul, e deseja provocar uma crise no casal, usando os encantos de Armandine para desmanchar o casamento.

- Importantíssimo – diz Potingnac. – O decote.

- Assim? – pergunta Armandine.

- Mais... mais... Chega. O truque é provocar a curiosidade sem satisfazê-la. Um colo à mostra deve ser como o prefácio de um livro, que diz como ele é bom mas não conta toda a história. E monsieur Raul adora livros.

- Devo apresentar-me a ele, então, como uma brochura?

- Não, como um livro raro, daqueles que já passaram por várias mãos, mas só de conhecedores. Raul gosta de cheirar livros. De abri-los aos poucos e saborear suas páginas como as pétalas de um legume.

- Devo, pois, ser uma mistura de primeira edição com alcachofra.

- Exato. Incline-se e diga: “Seu conhaque, monsieur”.

- Seu conhaque, monsieur.

- Perfeito. Apareceu o rego dos seios. O rego dos seios é como o estreito de Gibraltar para os antigos, uma passagem apertada entre duas massas continentais, convidando o homem à grande aventura do desconhecido.

- Mas certamente monsieur Raul já conhece essa aventura.

- Só de livros. Desconfio que a única mulher da vida de Raul foi, hélas, a doce Augustine, e que ele deve navegar no seu corpo como um graveto num lago, em vez de uma caravela num mar bravio. Ah, as injustiças do mundo.

- Depois de oferecer o conhaque...

- Pergunte: “Monsieur quer que eu prepare o seu (pausa) charuto?”.

- Monsieur quer que eu prepare o seu...

- Pausa!

- ... charuto?

- Ótimo. A pausa sugestiva é a mais poderosa arma de sedução inventada no Ocidente depois da pomada para o cabelo. Com uma pausa bem colocada derruba-se qualquer inibição. Até a do meu bom amigo Raul. Pausa e decote. Com pausa e decote, Raul sucumbirá. Augustine ficará sabendo da sua infidelidade e finalmente será minha!

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Armandine

- Seu conhaque, monsieur.

Raul, com os olhos no decote de Armandine:

- Obrigado.

Armandine, ainda inclinada para frente:

- Monsieur quer que eu prepare o seu (pausa) charuto?

- Meu (pausa) quê?

- Seu (pausa) charuto.

- E você tem prática com (pausa) charutos?

- Ah, sim monsieur. Sei enrolar um charuto, alisá-lo, esquentá-lo e, se monsieur quiser, morder a (pausa) ponta.

Raul:

- Mmm. Grmmm. Sim.

- Posso pegar?

- Pegar?

- O seu (pausa) charuto?

- Ah, sim. Sim. Um chabem viria ruto. Digo, um charuto viria bem. Com o conhaque.

- Monsieur quer que eu morda a (pausa) ponta?

- Sim. Não. Sim. Sim. Não! Obrigado. Eu mesmo gosto de morder a (pausa) ponta.

E Raul avança nos seios de Armandine.

Atrás da cortina de onde observavam a cena, Augustine vira-se para monsieur Potingnac e exclama: “Oh, esse é o novo e ardoroso Raul, que eu não conhecia. Vou usar a mesma tática dessa criada, pausa e decote, para reacender o interesse do meu marido em mim. Obrigado monsieur Potingnac, por essa lição!”.

Data-se deste episódio, e da expressão na cara de monsieur Potingnac, a invenção do muxoxo.


Domingo, 18 de setembro de 2005.



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